Manoel de Barros. Gravem este nome. Se gostam de trechos curtíssimos que fazem pensar, que fazem a sua criança interior saltar de alegria, procurem ler algo deste mineiro.
O titulo desta crônica é de um dos textos de Manoel de Barros.
“O que não invento é falso” é uma das suas máximas.
Recebi de presente no natal passado um livro objeto deste autor que é um primor de criatividade. Folhas soltas dentro de uma bela e simples caixa de papelão. O livro são folhas dobradas ao meio e contem a direita um pequeno texto de Manoel e a esquerda um desenho da filha artista plástica. “Memórias Inventadas- Primeira Infância” é o titulo do primeiro dos três volumes.
Gosto de frases curtas, que façam pensar, que estimulem nossa vontade de fazer, de brincar, de aprender. Sonhar, imaginar que o impossível é possível segundo a lógica de quem acredita e dá espaço a sua criança interior.
Sonhar permite que vejamos pronto e belo o inexistente, que por não existir na realidade se torna ainda mais belo em nossa imaginação, em nossa viagem imaginária.
Para tornar sonhos possíveis, realizáveis e reais, existe a necessidade de criar parâmetros, projetos, quereres. Para simplesmente sonhar nada disto é necessário. A realidade é “virtual” dentro do nosso hardware mental, dentro do nosso cérebro. Dentro desta “virtualidade” podemos viajar a lugares impossíveis, podemos transcender.
Pensar como criança torna tudo possível. Torna belo, muito mais belo o que não existe do que a realidade “real”. Para a criança que se integra com o brinquedo, o mundo está todo ali ao seu redor. Vejam uma criança solitariamente brincando e observem se ela não é naquele momento mais feliz que nós adultos com nossas, muitas vezes, preocupações excessivas.
Biologicamente adulto, quase septuagenário, quero cultivar a criança interior comigo, compartilhar suas alegrias e experiências com os que lêem meus rabiscos. |
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Esta criança gosta de circos, de musica, de leitura, de boas conversas, de brincar, nunca de competir.
Esta criança desde sempre, não brincava “as devras” e sim de “as brinca”.
As bolinhas de vidro que eu tinha eram escolhidas uma a uma e NUNCA as colocaria em risco de perdê-las se o jogo fosse “as devras”. Assim como as figurinhas do sabonete Eucalol, os Gibis de coleção, a coleção do Tesouro da Juventude. Tudo fazia parte de uma riqueza incalculável no meu imaginário infantil e depois juvenil.
Cedo me fiz adulto, responsável e por algum tempo não me dei conta que criança interior estava todo tempo comigo me ajudando, aconselhando, me ensinando os caminhos mais prazerosos.
Filhas e neta completam minha família. Hoje adultas devem ter também a sua criança interior, visto o que fazem.
Encerro com outro texto de Manoel de Barros:
“No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal:
Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.”
O dia envelhece no fim de cada tarde, morre a meia noite e no mesmo momento, bem no escuro, quietinho renasce. Aguarda paciente que acordemos para nos apresentar novas oportunidades, novas perspectivas, novas criancices.
Viva, sonhe, observe. Valorize amigos, interaja sem nunca esquecer que dentro de si existe um tesouro inestimável.
Você mesmo criança.
ricardo@blauth.com.br
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